Entrevista INDICA(som)

Guilherme Scardini

julho 31, 2015

Não lembro como cheguei até o Guilherme Scardini, mas acho que foi pelo Soundcloud.  Ouvindo o EP “Varandeiro” e apaixonada pela “Absurdo“. Adoro demais a voz, a levada das músicas dele e como ele consegue encher tanto de poesia cada letra. Você vai reparar o tanto de vezes que vai colocar a mesma música pra entender as letras lindas. Mas o bacana da música é isso, a interpretação que cada um tem, em cada momento da vida! 🙂

Guilherme Scardini lançou seu novo EP, “Feira” que ficou LINDIMAIS. Ele trouxe uma pegada um pouco diferente do primeiro EP que era mais violãozinho, o novo EP tá cheio de sintetizadores e como sempre, de letras boas demais. Como disse ele na entrevista: “foi uma catarse, de me livrar da minha autoimagem, e me abrir pra possibilidade de outras versões de mim mesmo.”

Descobri um cara legal demais por detrás do Facebook, batemos alguns papos online e quando recebi a entrevista fiquei pensando o quão complexo deve ser conversar com esse ser tão poético que é o Guilherme! haha! A entrevista tá incrível, se eu fosse você, separava um tempinho especial pra ler e entrar um pouco nesse universo:

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– Fala um pouquinho da rotina do Guilherme Scardini?
Bom, eu sou um estudante de Arquitetura e Urbanismo nas horas vagas, o que significa ter uma rotina massacrante de estudos, e ter que quebrá-la, vez ou outra, pra terminar os trabalhos, haha. Mas, para fins de ter uma rotina, recentemente eu tenho tentado fechar a noite sempre com um chá mate (quando dá).

– Desde sempre a música esteve presente na sua vida?
Eu acho que, por um tempo, eu não me importava muito com música. Acho que era aquele espaço de formação de caráter ainda, eu não sabia do que gostar, estava descobrindo que existia música ainda, até os meus 12 anos, por aí. Depois disso eu comecei a tocar violão, e eu descobri que gostava mesmo de música.

– Quando você começou a compor?
Aos 13 anos. Eu e meus primos tínhamos uma banda de garagem, onde eu tocava teclado, e um dia eu cansei de tocar as músicas de sempre, e resolvi eu mesmo escrever alguma coisa pra gente tocar. Claro que ficou horrível, mas pelo menos eu descobri que se eu tentasse, dava pra escrever, e aí não parei mais.

– Além do violão, você gosta de tocar outro instrumento também?
Eu toco piano desde antes de aprender a tocar violão. Mas pela falta de prática, hoje eu sei uma coisa ou outra de cabeça, mas eu gosto muito de praticar. Sempre que eu tenho tempo eu sento no piano e continuo tentando terminar de tirar a mesma peça de Chopin de sempre. Além do piano, eu me aventuro no baixo de vez em quando, a exemplo do show do dia 04/07 na Barra da Tijuca, quando eu troquei o violão pelo baixo em algumas músicas. Mas nada definitivo.

– Você tem uma banda fixa que toca com você? Fala deles pra gente?
Eu tenho tocado atualmente com uma formação de 3 músicos de apoio, o Eric Funabashi na bateria, o Filipe Poltronieri na guitarra, e o Phillip Rios (PH) no teclado, e acabo alternando entre o baixo e o violão. Todos são de Vitória/ES, minha cidade natal, o que torna as coisas bem complicadas quando o assunto é ensaiar. Como eu moro no interior de Minas Gerais atualmente, eu acabo tendo que viajar nos feriados e finais de semana oportunos pra ensaiar, e aí nós não temos ensaios regulares toda semana, mas acaba funcionando. Além disso, Filipe e Eric que gravaram as baterias e guitarras do EP Varandeiro, o que facilita bem as coisas no fim das contas.

– Fala um pouco das tuas influências na vida?
Bom, pra ser mais específico, em se tratando de musicalidade, eu ouço muita coisa o tempo todo, mas sempre acabo voltando no Radiohead e no Milton Nascimento, passeando pelo Bombay Bicycle Club, Roberto Diamanso, Sufjan Stevens e Bon Iver. Ultimamente eu tenho arrastado uma asa pra essa onda dream pop/psychodelic/surf music do Mac DeMarco, Real Estate e Tame Impala.

Além disso eu gosto muito de artes plásticas e de fotografia, principalmente quando as duas se misturam. Como, por exemplo, na instalação de um cara de Chicago que se chama Jason Lazarus, entitulada de Too Hard To Keep (“Difícil demais pra guardar”); Ele pede que as pessoas enviem pra ele fotos que são difíceis demais de se ter, mas que não podem ser jogadas fora também, e exibe essas fotos em uma sala. Acho extremamente bonito, e tocante, e um dia eu quero ver ao vivo.

Eu gosto muito também do pão que a minha vó faz, e sempre que eu venho pro Espírito Santo eu peço pra ela fazer no domingo à tarde, e aí a família toda se reúne em volta da mesa pra tomar café. De vez em quando tem um bolo de cenoura também, mas aí tem que pedir, porque a minha vó até gosta de cozinhar, mas ela gosta mais é que a gente venha pedir pra ela com todo carinho pra cozinhar pra gente hahaha.

– Vejo que você é um cara bem poético, BEM poético. 🙂 Você tem algumas coisas específicas que te inspiram à essa poesia ou tudo é muito relativo?
Uma vez eu ouvi a Adélia Prado dizer que o objetivo da arte reside no exato momento em que a obra vibra poeticamente, e tange o inatingível. E ali mora uma experiência religiosa, transcendental, de se deixar ser instrumento de algo maior que me suplanta, e produz essa experiência poética, que existe nesse toque, entre eu e algo maior, mais bonito, completo. Acho que essa transpiração poética vem de ser instrumento, ou pelo menos se perceber instrumento.

Eu venho pensando sobre aonde exatamente que mora essa vibração, esse momento, na produção artística, e cheguei até a discutir com o Daniel Caldeira sobre isso um dia desses. Não sei se na hora em que a arte é concebida como um plano, ou quando ela é registrada, ou quando ela é executada, ou quando ela é percebida, só sei que essa vibração acontece, e perseguir esse momento é o que dá sentido a tudo que a gente faz. Do contrário a gente vive perseguindo um monte de vaidades vazias. Bom, eu sei que esse argumento parece contradizer a inutilidade ou egocentrismo da arte, mas veja bem, essa experiência não pode ser controlada. Pelo menos, nenhuma das minhas tentativas foi bem sucedida. E eu acabo percebendo uma misericórdia redentora muito grande vinda de onde vem essa experiência poética quase acidental, que acaba atravessando a arte vaidosa, vazia, egocêntrica e inútil pra tocar quem ouve, ou vê, ou sente. O caminho pra conceber essa arte é esgotante, mas eu acho que vale a pena.

– Indica pra gente uma galera que faz música brasileira da boa?
Olha, tem um pessoal que eu vou indicar, mas você já conhece, hahahaha. São meus amigos, e eu encho a boca pra falar isso: o Daniel Caldeira, que fez um dos CDs mais sinceros e tocantes que eu já ouvi, sem demagogismo nenhum, o “Pronto pro Mundo”; O João Pedro Mansur, que produziu o meu segundo EP “Feira”, e que é vocalista de duas bandas que eu respeito demais da conta, a Marrakitá e a Cine Mondatta, as duas de Brasília; A {Sí}monami, que foram amigos que eu fiz na estrada, e que são pessoas de verdade fazendo música de verdade sobre coisas de verdade da vida, e eu não sei explicar o som deles melhor do que isso haha; E a Liz Valente, que mora em Viçosa/MG, onde eu fui morar em 2012, que cumpre bem o seu objetivo de fazer música mineira. O disco dela, “Pipa Amarela”, é bonito demais, visualmente e musicalmente; Além deles, eu indico muito mesmo o Fernando Zorzal, que é capixaba e lançou um dos melhores discos de 2014, o André Prando, capixaba também, e o Crombie, de Niterói, que todo mundo já deve ter ouvido, mas por via das dúvidas, eu indico de novo.

– Como você vê a cena musical em que atua?
Olha, pra ser sincero, eu não sei que cena musical é essa em que eu atuo, rs. Talvez a divisão mais justa pra definição de “cena musical” seja a divisão regional, e aí é onde eu me perco. Eu sou capixaba, mas eu moro no interior de Minas Gerais. Então, de um lado, Viçosa é uma cidade universitária sem uma cena musical expressiva, por falta de organização, eu acho. E, de outro, eu não fico tempo suficiente em Vitória pra fazer parte da cena musical de lá, pelo menos por enquanto. Então, quando eu penso em me incluir em uma cena musical, eu acabo me sentindo perdido nesse meio termo, hahaha. E já que essa opção de cena regional não existe pra mim, eu acabo caindo numa questão beem mais ampla, quase geracional, pra qual existe um esforço muito grande pra rotular e definir. O termo que eu mais ouço é Nova MPB, que não faz muito sentido pra mim haha. E aí acabam misturando bandas de todos os tipos e com abordagens diferentes: Phill Veras, Mombojó, Móveis Coloniais de Acaju, Cícero, A Banda Mais Bonita da Cidade, Mallu Magalhães, Los Hermanos, Tulipa Ruiz, Criolo, Tibério Azul, Vanguart e por aí vai. E eu acho um pecado jogar essa galera toda em um saco só pra tentar analisar, rs. Talvez, daqui a um tempo, eu consiga responder essa sua pergunta mais objetivamente, mas por enquanto, eu vou ficar te devendo nessa hahaha.

– O Feira EP ficou muito bacana, achei que ficou bem consistente, você trouxe um som um pouco diferente, cheio de sintetizadores e as letras, continuam incríveis. Pode falar um pouco do processo de produção do EP? E como você se sentiu com ele pronto?
O EP Feira foi produzido em Brasília, no estúdio do João Pedro Mansur, e foi um processo doloroso pra mim, porque foi meio que uma catarse me livrar do violão de nylon. Quando eu cheguei no estúdio do João em Brasília, eu tinha um esboço de como todas as músicas soavam no violão, mas eu não tinha uma ideia de como eu queria que elas ficassem. Como eu disse anteriormente, eu gosto muito do trabalho do João, e eu tava curioso pra descobrir o que a gente poderia fazer juntos do zero no estúdio com esses esboços que eu tinha. Então, eu mostrei as músicas pra ele, e depois de alguns ajustes estruturais como ritmo e alguns acordes, a gente já foi direto gravar e ia produzindo enquanto gravava. O João e eu temos coisas em comum e coisas divergentes que foram cruciais pra esse processo, brigamos durante alguns dias pra decidir se o violão ia entrar ou não na música “Feira”, hahaha. Acabou não entrando, mas também acabou não fazendo falta. As nossas influências em comum essenciais pra esse disco foram Thom Yorke e o Radiohead, e o Milton e o Clube da Esquina. Foi uma semana intensa de produção e gravação, e às vezes, um cabo de força entre nós dois, pra decidir o que ficava e o que saía. Como eu disse, foi uma catarse, de me livrar da minha autoimagem, e me abrir pra possibilidade de outras versões de mim mesmo. No fim das contas, o resultado agradou bastante.

– Fala um pouco dos novos projetos que vem seguindo depois do lançamento do Feira EP que ficou lindão?
Em Agosto desse ano eu viajo para a Hungria, pra passar um ano morando fora, mas isso não significa pôr o trabalho em suspensão. Pra mim, é o contrário. Vai ser um tempo de amadurecimento, de explorar novas propostas, e de bastante produção, então eu vou estar mais presente online do que nunca! Tenho planos pra quando eu voltar, mas são só especulações, rs.

– Falando ainda do EP Feira, qual sua música queridinha?
Eu tenho um carinho especial por “Conversa”. Justamente a que tem menos atenção, haha.

– Qual música você não tira da cabeça por esses últimos dias?
A música “Patativa”, do CD Menestrel, do Roberto Diamanso.

 

 

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