Conto escre(VENDO)

[o fusca intolerante]

Janeiro 6, 2015

Era segunda-feira, um dia estranho, o sol rachou o dia inteiro e a noite trouxe uma brisa com céu nublado. Ele foi buscar ela no supermercado, dirigindo lentamente seu fusquinha azul, passando as marchas com dificuldade ao som daquela brisa que entrava pelos vidros do carro. Parecia uma noite como qualquer outra, mas algo o atormentava. Não conseguia conviver com a ideia de que ela, aquele ser tão lindo que viu crescer, decidiu viver a vida que ela própria construiu.

Ela não era nem daqui, nem de lá, simplesmente não se encaixava nos lugares. Sempre foi muito briguenta, batia o pé para os nãos recebidos querendo saber a profunda razão de ser. Não se contentava com pouco, sempre queria mais. Sempre foi de defender negros, gays, moradores de rua e oprimidos, nunca se contentou em deixar uma conversa que os menosprezasse passar.  Cheia de indagações, cheia de dúvidas, cheia de revolução no sangue. E ele nunca conseguiu a compreender! Ela não poderia ser tão diferente assim! Não lhe cabia na ideia o porquê dela ser assim, mal sabia ele que a vida se encarregou de trazer as perguntas sem respostas através dela,  o destruir para reconstruir paradigmas, uma nova visão e forma de encarar a vida. Não, ele não enxergou essa possibilidade!

Ele não conseguia conviver com essa diferença tão gritante. Pra ele, o desgosto era tão grande, ela não era quem ele queria que fosse. Ela não se tornou o sonho que ele sonhou! Ela decidiu ser ela, decidiu pela liberdade, mesmo sofrendo, mesmo com o coração dilacerado. E ele atormentado com todas as ideias de quem ela se tornou só podia pensar que isso não poderia continuar a ser.

Naquela segunda-feira estranha, mãos ao volante, ele dirigindo, ela passageiro! Ele pé no acelerador, ela gritando: cuidado! cuidado! Ele pisava cada vez mais fundo em seu orgulho, não percebeu que era só frear com amor, com compreensão. Ali morreu, com seu orgulho! Prefiro morrer a viver tendo que encarar quem você realmente é, não posso aceitar.

intolerância.

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